Thor Heyerdal morreu antes de ver sua teoria provada em 2020 através de DNA, e por mais que a ciência duvidasse, em um ponto ninguém discordava: atravessar o oceano atlântico em uma balsa de madeira, foi realmente incrível!
O norueguês Thor Heyerdal morreu uma década antes de ver sua teoria sobre a colonização da Polinésia parcialmente provada em 2020 através de estudos genéticos, e por mais que ainda enfrentasse o ceticismo científico, um ponto ninguém discordava: atravessar o oceano atlântico como se fazia há 3 mil anos, em uma balsa de madeira com uma vela quadrada e ao sabor da corrente, foi realmente incrível!
Quando teve a idéia de provar sua teoria colonizadora na prática, Thor Heyerdal não era novato em “roubadas” e já tinha algum reconhecimento. Havia morado em vários países, escrito artigos para a National Geographic e voluntariamente lutado na segunda guerra como paraquedista. Antes, aos 23 anos, já graduado zoólogo e geógrafo, ele e sua esposa passaram um ano isolados em uma ilha Polinésia para experimentar como seria a vida em seu estado mais natural. E foi onde começou a desenvolver sua teoria, apoiada em aspectos da flora.
Ao se aprofundar na cultura local, outras características significativos, como o idioma e divindades em comum, corroboravam com a tese de que aquele povo era originário da América – em especial Central ou do Sul. Só havia uma questão a explicar: como cruzaram o oceano¿
DE BOLSISTA QUESTIONADO À EXPLORADOR RESPEITADO EM SEIS MESES
No momento em que decidiu provar sua teoria, Thor Heyerdal era bolsista nos Estados Unidos e sem um níquel para o próximo aluguel, muito menos para uma expedição à Polinésia partindo da América do Sul. Enquanto a comunidade científica e especialistas da navegação apostavam em sua morte, ele obcecadamente angariou ajuda mesmo de quem não acreditava na idéia, e em três meses, depois de recorrer a etnólogos, marujos, exploradores, militares, diplomatas e até ser atendido pelo Presidente do Peru, partia a “Expedição Kon-Tiki”.
O livro lançado em 1948, um ano após a expedição, vendeu mais de 25 milhões de exemplares em 60 idiomas, e está longe de ser somente um relato de travessia marítima. A travessia em si apenas permeia uma história contada pelo próprio explorador e que começa meses antes da partida, na infrutífera tentativa de obter apoio da comunidade científica. Em curto espaço de tempo, Thor Heyerdal se vê em audiência com o presidente do Peru ou buscando troncos específicos em uma selva Equatoriana onde nativos degolavam seus inimigos.
Mas localizar a madeira foi só o começo; navegar daquela forma era uma técnica e uma arte esquecida havia séculos. O motor natural seria a corrente de Humboldt, e diferente das teorias colonizadoras, não iriam em uma frota. Um rádio de pouco serviria em um naufrágio e Thor Heyerdal ainda temia problemas de relacionamento, já que os seis homens da tripulação não se conheciam e tinham formações e motivações bem distintas. E a ele não restava outra forma de provar sua teoria antropológica senão cruzando o oceano.
Foram semanas sem avistar nenhum sinal de vida ou indicações de mais gente no mundo além deles. Durante a expedição a rotina dos marinheiros vai mudando a medida que lidam com peixes-voadores se atirando no deque, polvos e baleias que rodeiam a embarcação, e claro, a tensão com tubarões de até três metros que são capturados num misto de pesca e caça; abatidos a golpes já em cima da balsa. Já para os tubarões maiores, a comida estava na balsa!
QUASE MORREU NA PRAIA!
Navegando uma média de 60 milhas por dia a expedição atingiu a Polinésia em 93 dias, mas isto não significava o sucesso total; vencer as barreiras de corais e as ondas costeiras ainda eram emoções desconhecidas. Aos 97 dias, apesar da ajuda de nativos, não conseguiram encostar e as correntes os levaram mais 3 dias até a derradeira, emocionante e arriscada chegada em um recife de corais. Foi recebido por nativos cujos anciões reconheceram àquela embarcação como a das histórias de seus antepassados.
No decorrer do livro, com uma lucidez vanguardista para a época, o explorador ainda pincela aspectos históricos e políticos dos povos envolvidos, dos momentos políticos de então, da guerra e até mesmo sobre o desperdício de papel, citando como exemplo a documentação da expedição, que supostamente consumiu pelo menos “meio pinheiro”.
Thor Heyerdal foi o último membro da expedição a morrer, em 2002, não sem antes outros feitos notáveis em prol da ciência. Entrevistado em 2016, quando perguntado porque decidiu construir a balsa, disse querer romper o dogma de que as balsas não aguentariam cruzar do Peru ao Taiti, e acrescentou: “queria mostrar aos cientistas que o homem sempre buscou expandir seus horizontes.”
O livro “A Expedição Kon Tiki” serviu de base para um documentário vencedor do Oscar de 1951, e um filme indicado ao Oscar em 2013, foi lançado no Brasil pela editora “José Olympio”.





























